Só é bom enquanto não acontece
Renato Abreu é um dos convocados de Mano para enfrentar a Argentina (noticiasflamengo.com)
Seleção de jogadores que atuam no Brasil
Basta a Seleção Brasileira ter uma atuação ruim para que surjam pessoas dizendo que os brasileiros que atuam na Europa jogam sem vontade e sem amor à camisa amarela. Para os que pensam assim, a solução seria convocar somente atletas que jogam em clubes do País. Pois para os amistosos com a Argentina, Mano Menezes só pôde chamar jogadores que estão em território nacional. A lista – que contou com nomes como Ralf, Rômulo, Renato Abreu e Cícero – gerou diversas críticas. Críticas, porém, sem reclamações quanto a grandes nomes que tenham ficado de fora. Em outras palavras, a lista não é boa, mas não há nada muito melhor no Brasil. Isso só prova que a ideia de que a Seleção jogaria melhor caso só tivesse atletas de times nacionais é ruim. Não resistiu à primeira convocação.
Opinião sem observação
Críticas a nomes como o do lateral Bruno Cortês somente reforçam uma opinião recorrente do BFL: quem corneta a Seleção Brasileira, via de regra, não entende absolutamente nada de futebol. Em alguns casos, sequer assiste a partidas. Se há uma posição em que falta jogadores de qualidade no mundo inteiro, ela é a de lateral. Por isso, numa lista reduzida a nomes do Campeonato Brasileiro, encontrar gênios da bola para a lateral é missão impossível. Além disso, Cortês não é mau jogador – é até uma aposta interessante para o futuro. Só diz coisas como “Quem é esse Cortês?” aquele tipo de torcedor que escuta algo na TV aberta e repete por osmose. Provavelmente dirá, também, que faltou o Arouca na lista do Mano, simplesmente porque isso foi dito na televisão – quando, na verdade, o volante do Santos não está em boa fase.
Protesto? Onde?
Normalmente, em dia de clássicos, as torcidas uniformizadas do Brasil só chegam aos noticiários por culpa das confusões e brigas que geram entre si. Entretanto, na rodada de dérbis do Campeonato Brasileiro que ocorreu no fim de agosto, uniformizados de todo o País foram destaque por outra atitude: os protestos contra Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do comitê que organiza os preparativos para a Copa do Mundo de 2014. Aqui, independe o fato de você, leitor, gostar ou não dos torcedores uniformizados: eles, como qualquer outra pessoa, são cidadãos, e têm total direito a expressar o que pensam. Mas a Rede Globo, aparentemente, não pensa assim. Em todos os jogos que transmitiu (seja por Globo, SporTV ou PFC) e em seus programas esportivos da segunda-feira posterior, os protestos foram completamente ignorados. Sabe-se da ligação que há entre Teixeira e Globo. Mas isso não deveria interferir no conteúdo editorial da casa. Como interferiu, percebe-se: neste caso, mais valeu os acordos ocultos do que a transparência jornalística. Lamentável.
Foto: r7.com
Cobrança fora de hora
Setembro chegou. Portanto, é hora de o BFL voltar das férias. Neste retorno, o destaque vai para uma frase que foi dita há uma semana, mas que o blog não poderia deixar passar sem um comentário.
Corinthians passa por má fase e vê adversários encostando na classificação (terra.com.br)
Eu sei que os jogadores são seres humanos e têm altos e baixos, mas não pode: estamos perdendo um campeonato ganho de novo. O Tite erra e acerta como todos os treinadores. O problema são os jogadores, que perdem um jogo como o do Figueirense. Também não consegui engolir o empate com o Ceará e a derrota para o Avaí. – Andrés Sanchez
Quem lê esta declaração do presidente do Corinthians pode até imaginar que a equipe caiu na classificação e está perdendo distância dos líderes do Campeonato Brasileiro – quando, na realidade, Tite e seus comandados continuam na primeira posição. É verdade, sim, que o desempenho corintiano na competição não vem sendo dos melhores nos últimos tempos. Entretanto, o que é necessário entender é que o momento atual do torneio, com jogos todas as quartas e domingos, é propício para que os times fiquem irregulares.
Com duas rodadas por semana, a quantidade de lesões e suspensões de atletas aumenta e a preparação física geral cai (algo muito relevante no caso do Corinthians, já que uma de suas principais vantagens no início do campeonato era o vigor físico). E, nessas condições, nenhum clube consegue manter uma boa sequência de resultados. Em 2010, o Fluminense viveu a mesma situação neste período da competição: perdeu, por exemplo, para Guarani e Atlético Goianiense. E isso não impediu a equipe de ser campeã.
Em outras palavras, queda de rendimento quando a frequência de partidas aumenta é algo natural. E, ao não entender isto e fazer pressão pública, Andrés Sanchez não só está criticando em hora errada, como também pode estar – ele sim – colaborando para que o Corinthians perca o campeonato.
Férias
O Blog do Filipe Lima entrará, a partir de hoje, em férias de um mês.
O autor deste espaço está começando novas atividades (de estudo, basicamente) e tomará este tempo para se adaptar a elas e à nova agenda de horários que terá que obedecer para cumprir todas as suas obrigações diárias.
O BFL voltará à sua atividade regular em setembro.
A polêmica entrevista de Teixeira
Muito se falou, recentemente, da polêmica entrevista dada pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira, à Piauí. A matéria foi publicada na íntegra no site da revista, e é a indicação de leitura de hoje do Blog do Filipe Lima:
Teixeira não mediu palavras em entrevista à Piauí (r7.com)
“Se a senhora um dia tivesse que definir a malandragem, no bom sentido, claro, ela se chamaria Ricardo Teixeira.” É assim que o atual presidente da CBF foi descrito à repórter Daniela Pinheiro pelo ex-sogro e ex-presidente da Fifa João Havelange. Por isso, é impossível acreditar que esta entrevista à revista Piauí, cheia de palavrões, ostentação de poder e ataques a alguns veículos de imprensa, não tenha sido friamente calculada.
Independentemente disso, o que se lê, linha após linha nesta matéria, é um retrato fiel de quanto poder Teixeira tem em mãos e como ele o usa. Para aqueles que torcem por alternância de poder e pela queda de pessoas que se instalam nos postos de comando por muito tempo, esta reportagem só serve para reforçar ainda mais o desejo de mudança em relação à Confederação Brasileira de Futebol.
Vitória da continuidade
A falta de continuidade de trabalho na Seleção Brasileira, resultado da desnecessária pressão da torcida, tornou-se tema recorrente no BFL. E o título do Uruguai na Copa América de 2011, conquistado neste último domingo, só serve para reforçar ainda mais a visão que este blog vem expondo nas últimas semanas. Os uruguaios não tinham um grupo de jogadores tão talentoso quanto o da Argentina ou o do Brasil, mas tinham a continuidade que faltava aos seus principais adversários – o elenco celeste que venceu o torneio continental é bastante similar ao que, há um ano, chegava ao quarto lugar da Copa do Mundo. Não que a equipe de Dunga tivesse que ser totalmente mantida para 2011. Mas parte da base certamente poderia (e deveria) ter sido reaproveitada. Investir em trabalhos de longo prazo é essencial no futebol. Principalmente entre seleções, que têm pouco tempo para se reunir e treinar. Que a lição fique para o Brasil, e a derrota na Copa América não seja motivo para mais um recomeço fora de hora.
Foto: r7.com
Abrindo os olhos
A América Latina sempre foi um dos maiores celeiros de craques do mundo do futebol. Por muito tempo, ano após ano, assistíamos a diversos jogadores darem show de bola diante dos brasileiros em partidas da Libertadores da América e das Eliminatórias para a Copa do Mundo, e nada fazíamos. Agora, finalmente, os clubes do Brasil abriram os olhos para esta realidade: há muito talento em times dos países vizinhos, e eles podem ser grandes contratações para reforçar os elencos daqui. A vinda de Martinuccio, um dos principais nomes da última Libertadores, reforça este novo panorama, que já conta com nomes como Montillo, D’Alessandro, Guiñazú, Loco Abreu, Valdívia, Bottinelli, entre outros. A contratação de jogadores estrangeiros de talento só tem a acrescentar ao nível do Campeonato Brasileiro. Prova disso foi 2010, ano em que três dos melhores jogadores da competição eram argentinos: Conca, Montillo e D’Alessandro.
Foto: globoesporte.com
Uma nova chance
Adilson Batista é o novo treinador do São Paulo (lancenet.com.br)
A escolha
Desde a demissão de Paulo César Carpegiani, o São Paulo analisava cinco nomes para assumir o cargo de treinador da equipe principal: Paulo Autuori, Dorival Júnior, Dunga, Adilson Batista e Cuca. A diretoria desistiu dos dois primeiros devido às altas multas que teria que pagar para tirá-los de seus atuais clubes. Dunga não tem interesse, ao menos no momento, de trabalhar no Brasil. Restavam, da lista inicial, Adilson e Cuca. Dos dois, Cuca parecia ser o mais adequado para o atual momento de reformulação da equipe. Porém, há rumores de que Rogério Ceni teria vetado a vinda de Cuca. Apesar de o goleiro negar tais rumores, Adilson foi o escolhido – o que deixa a história mais duvidosa. Se for verdade que Rogério participou da escolha, está errado. O camisa 1 é, sim, o maior ídolo da história tricolor, mas é jogador, e não dirigente. Ele não só não pode mandar no clube, como tem que respeitar a hierarquia e qualquer treinador que fosse contratado.
O desafio
No São Paulo, Adilson Batista terá a chance de voltar a ser um nome de respeito no mercado de técnicos. Isso, caso se redima de um erro recente. No Corinthians, ele pecou por chegar a uma equipe que estava totalmente montada, pronta para ser campeã brasileira, querendo mexer em tudo. Há de se lembrar, claro, que ele pegou o pior período do torneio, quando há jogos todas as quartas e domingos – momento em que os rivais Fluminense e Cruzeiro também foram muito mal. Porém, este era mais um motivo para deixar o time como estava. Não havia necessidade de frequentes mudanças táticas. Se Adilson aprendeu com o erro, ótimo para ele. Mas se ele repeti-lo no São Paulo, a equipe (que está muito bem, diga-se; rendendo mais do que o time titular atual realmente tem a oferecer) pode decair.
Culpa?
Há poucos dias, o BFL discutiu um problema recorrente da Seleção Brasileira, as desnecessárias voltas ao zero. O texto tratava de uma questão importantíssima: o torcedor brasileiro, em média, é arrogante, e não consegue admitir que perdeu devido ao melhor desempenho do adversário. Na visão do torcedor do País, o Brasil é sempre melhor do que todos os outros – e, se perdeu de alguém, foi por falhas internas. Aí, começa a caça às bruxas: culpa-se o treinador e mais um ou dois jogadores, julga-se que o trabalho desenvolvido até a derrota é péssimo, e faz-se pressão para que tudo seja jogado no lixo e que se comece algo novo do zero.
Até cabelo é “culpado” depois da derrota… (veja.abril.com.br)
Isso aconteceu depois da Copa do Mundo de 2010. Até o Mundial, o trabalho de Dunga era julgado bom pela maioria dos brasileiros – e, de fato, era. Foi só o Brasil perder para a Holanda, e tudo mudou. Dunga era péssimo, Felipe Melo era um desastre, o time era exageradamente velho, não havia talentos individuais… a lista de “culpados” era enorme, e ninguém parou para analisar a Holanda, que tinha um timaço.
Foi por causa deste tipo de pensamento – assumido, inclusive, por grande parte da imprensa esportiva nacional – que houve uma enorme pressão em cima de Mano Menezes para um recomeço do zero. Na estreia do novo treinador, diante dos Estados Unidos, a Seleção entrou em campo com Victor; Daniel Alves, Thiago Silva, David Luiz, André Santos; Lucas Leiva, Ramires; Robinho, Paulo Henrique Ganso, Neymar; Alexandre Pato. Dez novidades, se pensarmos que somente Robinho era titular durante a Copa. Em outras palavras, o que Dunga havia feito estava sendo totalmente descartado.
Com o tempo, alguns jogadores que eram titulares com Dunga foram retornando, como Júlio César, Maicon, Lúcio e Elano. Ou seja: se eles ainda eram considerados úteis por Mano Menezes, a ponto de voltarem ao elenco, por que foram tirados das primeiras convocações? Não seria muito mais fácil dar continuidade ao trabalho de Dunga e ir adaptando os novos convocados a uma equipe formada e segura, ao invés de jogá-los em um time novo? Porém, a pressão popular não permite. O brasileiro, orgulhoso ao extremo, não aceita derrotas que não gerem reformulações totais. E, com isso, a Seleção perde anos de trabalho para fazer o que, com uma transição inteligente, seria feito muito mais rapidamente.
Esta semana, está acontecendo tudo novamente. Desta vez, o Brasil foi derrotado pelo Paraguai na Copa América – e, com isso, o torcedor brasileiro partiu para mais uma nova caça às bruxas. Agora, o time é jovem demais (há um ano, o time era velho demais), Mano Menezes é teimoso em suas convocações (todo treinador acaba culpado)… acharam um jeito de responsabilizar até o cabelo do Neymar!
O torcedor brasileiro precisa entender que, atualmente, o Brasil não é a melhor seleção do mundo, e não adianta cobrá-la como tal. Aliás, não é nem uma das três melhores. Mas tem potencial para ser. Não adianta sair execrando os jogadores sem dar tempo suficiente para que eles se adaptem a um time que ainda está em formação – formação essa que só está acontecendo porque este mesmo torcedor, há um ano, quis recomeçar tudo do zero.
No fundo, o que o torcedor brasileiro precisa entender, mesmo, é de futebol. Porque a maioria dos que criticam não entende absolutamente nada. E, mesmo assim, se acha no direito de julgar, criticar e exigir.
Copa das zebras
Uruguai e Paraguai tiraram Argentina e Brasil da Copa América (globoesporte.com)
Argentina e Brasil caem nos pênaltis
Depois de atuações nada convicentes na primeira fase da Copa América, esperava-se que Argentina e Brasil crescessem e passassem a jogar melhor no mata-mata. Não deu nem para o começo: já nas quartas-de-final, os dois principais candidatos ao título de qualquer competição sul-americana foram eliminados. Mesmo com um jogador a mais em campo por quase 50 minutos, a Argentina não conseguiu superar o Uruguai e foi derrotada nos pênaltis. Já o Brasil não conseguiu melhorar um de seus principais problemas no torneio – a finalização –, ficou no 0 a 0 com o Paraguai e, nos penais, conseguiu errar todas as cobranças, dando a vaga aos paraguaios.
Todos os favoritos saíram
Colômbia x Peru, Argentina x Uruguai, Brasil x Paraguai e Chile x Venezuela. Pelo que desempenharam na Copa de 2010, Uruguai e Paraguai impunham respeito. Mas, mesmo assim, Colômbia, Argentina, Brasil e Chile eram os favoritos às vagas nas semifinais da Copa América. Ironicamente, a zebra passeou nesta fase, e os quatro azarões conquistaram a classificação. Com Peru, Uruguai, Paraguai e Venezuela ainda na disputa, o Uruguai parece o principal candidato à taça. Porém, com tantas zebras acontecendo, dá para acreditar?


